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Detecção de Geo-Helmintos de Importância a Saúde Única em Parques e Praças de São Carlos, SP

 

Giulia Carolina Silva[1]

Mara Lúcia Gravinatti[2]

 

Resumo

As helmintoses se destacam entre as doenças tropicais negligenciadas e representam um desafio a saúde pública devido à ampla circulação de parasitas em ambientes urbanos e à falta de informação sobre prevenção. Em praças e parques convivem humanos, animais domiciliados e errantes, constituem importantes pontos de exposição, especialmente porque muitos parasitas necessitam de fases ambientais para se tornarem infectantes. Diante disso, o estudo objetivou detectar geo-helmintos de importância à saúde única em áreas públicas de São Carlos (SP). Foram analisadas amostras de terra coletadas em diferentes profundidades utilizando métodos parasitológicos adaptados de Hoffmann, Pons e Janer (sedimentação) e Faust (flutuação). Foram identificados Toxocara spp., Ancylostoma spp., Trichuris spp. e aqueles pertencentes à família Ascarididae, sendo todos com potencial zoonótico e capazes de causar doenças como toxocaríase e larva migrans cutânea em humanos, sobretudo crianças. A detecção desses parasitas evidencia significativa contaminação ambiental e reforça a necessidade de ações integradas de vigilância, controle populacional de animais errantes e educação dos tutores quanto à vermifugação e ao descarte adequado de fezes. Os resultados destacam a importância da abordagem de saúde única, que integra saúde humana, animal e ambiental integrado a gestão pública na prevenção de zoonoses.

 

Descritores: saúde pública; fezes; cão; gato; zoonoses.

 

Introdução

Segundo órgãos oficiais de saúde mundial, as helmintoses estão entre as 20 doenças tropicais negligenciadas, afetando direta e indiretamente a saúde da população devido a carência de informações básicas sobre a presença, formas de prevenção, possibilidades de assistência e/ou tratamento adequado (PAHO, 2018).

Uma das principais rotas de transmissão de zoonoses helmínticas é a fecal-oral, e os animais domésticos podem representar um importante veiculador destas enfermidades, principalmente pelo contato íntimo com os seres humanos e pela circulação simultânea em espaços públicos (MELLO; MUCCI; CUTOLO, 2011). A exposição a ovos e/ou larvas de Toxocara spp. e Ancylostoma spp., que são os principais helmintos encontrados em cães e gatos, podem causar em seres humanos a larva migrans visceral (LMV) e a larva migrans cutânea (LMC), respectivamente (PEDRASSANI; VIEIRA; THIEM, 2008; CRESPO; FRADINHO; ROSA, 2013).

O nematódeo Toxocara canis tem por hospedeiro o cão (MEHLHORN, 2008). Seus ovos embrionados apresentam até quatro fases larvais, cujo tropismo é o intestino delgado. O verme adulto vive aproximadamente cinco meses no hospedeiro e nesse período chega a produzir e eliminar no ambiente entre 25.000 e 200.000 mil ovos por dia, que ao serem eliminados pelas fezes e necessitam permanecer duas semanas para tornarem-se infectantes, sob umidade e temperatura para seu desenvolvimento (facilmente encontrada no ambiente de parques e praças, na areia/terra) (CONCEIÇÃO et al., 2011).

A toxocaríase é o nome dado a doença causada pelo Toxocara spp. em seres humanos, principalmente em crianças, devida à contaminação das mãos pelo contato direto com os animais e/ou solo contaminado (CARVALHO; ROCHA, 2011). Tendo como principais manifestações clínicas, embora que a maioria das infecções seja assintomática: a) LMV com lesões em pulmões, músculo esquelético -  dores musculares, perda de peso, tosse, erupções cutâneas, hepato e esplenomegalia, coração e sistema nervoso central (neurotoxocaríase), sendo comum a presença de hipereosinofilia (aumento de eosinófilos); e, b) larva migrans ocular (LMO), normalmente em apenas um dos olhos - uveíte, retinite ou endoftalmite, com danos visuais permanentes ou cegueira (CDC, 2025a).

O nematódeo Ancylostoma caninum é um parasita de intestino delgado, que possui um ciclo monoxeno (GENNARI, 2015) e liberação de aproximadamente 16 mil ovos por dia via fezes. Dentre 24 e 48 horas, ocorre a eclosão do primeiro estádio larval (L1) (RIBEIRO, 2004), posteriormente há o desenvolvimento da larva até L3 (forma infectante) entre 5 a 7 dias, sob condições óptimas de temperatura e umidade.

A forma infectante pode ser ingerida ou entrar ativamente pela pele, em cães ao ser ingerida ela inicia o ciclo novamente até a L4 e L5 no intestino delgado (TAYLOR; COOP; WALL, 2014). Nos seres humanos, a L3 consegue penetrar ativamente pela pele, sendo favorecida pelos poros e/ou folículos pilosos, porém, ao penetrar a epiderme, esta larva não consegue ultrapassar o tecido subcutâneo, ficando apreendida durante algumas semanas ou meses. Seu deslocamento causa vários rastros, por isso são conhecidos popularmente como “bicho geográfico” (NEVES, 2005), causando reações inflamatórias locais, principalmente em localizações que apresentem contato direto com o solo, como membros inferiores, pés e nádegas (SANTARÉM; GIUFFRIDA; ZANIN, 2004).

Áreas de lazer, em ambientes urbanos, se resumem em praças e parques. Locais estes frequentados pelos munícipes com seus animais domésticos, além disso, frequentemente é possível verificar a presença de animais errantes circulando por esses locais, resultando em um potencial de contaminação por parasitas. Vale ressaltar que muitos dos parasitas entéricos, necessitam de uma fase ambiental para a realização de seu processo de ‘ativação’, onde se desenvolvem até as fases infectantes para o próximo hospedeiro (VARGAS et al., 2014).

Com isso, o objetivo deste trabalho foi analisar amostras fecais de cães e gatos colhidas em parques e bosques municipais de São Carlos, SP; bem como de amostras de terra colhidas de forma aleatória nestas mesmas localidades. 

 

Métodos

O projeto foi realizado de abril de 2024 a janeiro de 2025, realizando duas coletas em quatro parques e/ou praças do município de São Carlos, Estado de São Paulo. O intuito foi a investigação de geo-helmintos dessas localidades, a fim de determinar a presença e a circulação de possíveis zoonoses helmínticas na região.

Foram previamente selecionados parques para a representatividade de todo o município, sendo eles: 1) Parque Bicão; 2) Bosque das Cerejeiras; 3) Parque do Kartódromo e, 4) Parque dos Ipês. Sendo selecionados, de forma aleatória, um ponto de área arenosa/terra da localidade e coletados aproximadamente 100 gramas de terra em e profundidades diferentes: i) superficiais (até 5 cm); ii) de 5 a 10 cm de profundidade e; iii) de 10 a 20 cm de profundidade. A coleta foi realizada com o auxílio de uma pá, desprezando detritos (lixo, entre outros).

As amostras foram acondicionadas separadamente em sacos plásticos, tipo ziploc, identificados individualmente com o nome do parque e a profundidade da coleta e mantidos sob refrigeração até o momento da análise no Laboratório Multidisciplinar do Centro Universitário Central Paulista, São Carlos/SP (UNICEP).

Os métodos parasitológicos utilizados para as análises foram o método adaptado de Hoffmann, Pons e Janer (sedimentação) (HOFFMAN; PONS; JANER, 1933) e método adaptado de Faust (flutuação) (FAUST et al., 1938) preparadas as lâminas e observadas sob microscópio óptico nas objetivas de 10x e 40x.

Resultados

No método de flutuação, foram encontrados os nematódeos Toxocara spp., Ancylostoma spp. e parasitas da família Ascarididae, além de larvas, em todas as profundidades, sendo mais frequentemente encontradas entre 10 e 15 cm. Enquanto isso, no método de sedimentação, identificou-se Toxocara spp. e Trichuris spp., verme causador da tricuríase, em todas as profundidades. Uma das amostras, a 10 cm de profundidade, apresentou presença de Toxocara spp. simultaneamente as duas técnicas (sedimentação e flutuação), podendo indicar alta infestação ambiental. Na Tabela 1 é possível a visualização dos parasitas encontrados.

 

Tabela 1. Achados parasitológicos das praças e parques de São Carlos, SP.

PARQUE

PROFUNDIDADE

OVOS

LARVAS

TÉCNICA

1) Parque Bicão

15 cm

Família Ascarididae

Larvas NI

método adaptado de Faust1

2) Bosque das Cerejeiras

10 cm

Família Ascarididae

Ancylostoma spp.

-

método adaptado de Faust

2) Bosque das Cerejeiras

15 cm

Toxocara spp.

Larvas NI

método adaptado de Faust

2) Bosque das Cerejeiras

5 cm

Trichuris spp.

-

método adaptado de Hoffmann, Pons e Janer2

2) Bosque das Cerejeiras

10 cm

Toxocara spp.

-

método adaptado de Hoffmann, Pons e Janer

2) Bosque das Cerejeiras

15 cm

Toxocara spp.

-

método adaptado de Hoffmann, Pons e Janer

3) Parque do Kartodromo

5 cm

Ancylostoma spp.

Larvas NI

método adaptado de Faust

3) Parque do Kartodromo

10 cm

Família Ascarididae

Larvas NI

método adaptado de Faust

4) Parque dos Ipês

5 cm

-

Larvas NI

método adaptado de Faust

4) Parque dos Ipês

10 cm

Toxocara spp.

-

método adaptado de Faust

1 técnica de flutuação / 2 técnica de sedimentação / NI: não identificado

 

Vale relembrar que todas essas praças e parques estão à disposição da população São Carlense para atividades de lazer e passeio, e que o encontro dos ovos desses parasitas, frequentemente encontrados em cães e gatos, demonstram a necessidade do monitoramento constante da saúde dos animais de companhia (domiciliados e não domiciliados) pois estes colocam o ambiente em risco, evidenciando assim a importância da Saúde Única.

 

Discussão

 A investigação das parasitoses em animais e no meio ambiente é crucial no âmbito da Saúde Única, dado o estreito relacionamento entre humanos e animais de estimação.

O fato de ovos e larvas de parasitas zoonóticos persistirem no solo por anos, especialmente em áreas de lazer frequentadas por crianças, torna a vigilância ambiental indispensável. O clima tropical/subtropical, juntamente com a falta de saneamento básico, favorece o desenvolvimento e a disseminação desses parasitas (CDC, 2025b).

Embora o exame microscópico de fezes seja a base do diagnóstico parasitário em animais, para amostras ambientais, utilizam-se técnicas de concentração que são adaptadas para lidar com detritos do solo. Métodos como a sedimentação espontânea (Hoffman, Pons e Janer) e a centrífugo-flutuação (Faust) são comumente aplicados em amostras de solo arenoso para concentrar ovos e larvas de helmintos e protozoários (THOMPSON, 1999).

A presença desses geo-helmintos nas praças e parques do município de São Carlos/SP representam um risco significativo à saúde pública. No presente trabalho foram encontrados parasitas da família Ascarididae não chegando à espécie, entretanto se sabe que os principais agentes etiológicos em ambientes urbanos podem ser: Ascaris lumbricoides – humanos; e Toxascaris leonina – cão e gato; Trichuris spp., Ancylostoma spp. e Toxocara spp., esses helmintos são responsáveis por doenças conhecidas por serem zoonóticas e que podem causar desde quadros gastrointestinais leves até manifestações graves (CDC, 2025b).

O solo de praças públicas, frequentemente contaminado por fezes humanas e/ou de animais, torna-se um ambiente propício para a permanência de ovos e larvas desses parasitas. Os nematódeos Ascaris e Trichuris são transmitidos por ingestão de ovos presentes no solo, enquanto Ancylostoma spp. pode penetrar ativamente pela pele, causando lesões migratórias e anemia. Já os nematódeos do gênero Toxocara spp., proveniente principalmente de cães e gatos, pode provocar toxocaríase, afetando órgãos internos e, em casos mais graves, a visão (GUIMARÃES et al., 2005; MORO et al., 2008).

Em humanos, infecções por Toxocara spp. causam doenças chamada LMV e LMO, já Ancylostoma spp. ocasiona a LMC ou "bicho geográfico".

Estudos realizados em diferentes regiões do Brasil confirmam a contaminação de praças urbanas por esses mesmos parasitas. No município de Lavras (MG), por exemplo, foram encontrados ovos de Toxocara spp. e larvas de Ancylostoma spp. em áreas de lazer infantil (GUIMARÃES et al., 2005).

Em Itaqui e Uruguaiana (cidades do Estado do Rio Grande do Sul), a presença de Ancylostoma spp. e Toxocara spp. foi associada à circulação de animais sem controle sanitário (MORO et al., 2008). Ainda no mesmo Estado, no município de Balneário Cassino, 86,1% das amostras de fezes de cães em vias públicas estavam contaminadas, sendo 71,3% por Ancylostoma spp. e 3% por T. canis (SCAINI et al., 2003).

Já no Estado do Rio de Janeiro, a análise de praças públicas revelou a presença de ovos e larvas de helmintos, reforçando a necessidade de políticas públicas voltadas à vigilância ambiental e ao controle populacional de animais (SOUZA; MAMEDE-NASCIMENTO; SANTOS, 2007). Enquanto na cidade de São Paulo (SP) registraram prevalências de ancilostomíase em cães domiciliados em torno de 7,1% a 12,7% (FUNADA et al., 2007; BARNABÉ et al., 2015).

O estado de Rondônia (RO) apresentou taxas muito altas, com média de prevalência para animais domiciliados de 85,85% em algumas pesquisas (LOPES et al., 2021). Na cidade de Manaus (AM), um estudo em canis registrou 100% de amostras infectadas por pelo menos um parasita (PEREIRA JUNIOR; BARBOSA, 2013). Já no Pará, em parques públicos, 80,0% das amostras de solo foram positivas para formas parasitárias, sendo a LMC responsável por 72,1% e a LMV por 27,9% e 58,8% de predominância de larvas filarioides de ancilostomídeos (forma infectante) (ROCHA; WEBER; COSTA, 2019).

Um estudo identificou parasitas em 96,4% das praças e em 52,8% das 140 amostras analisadas na cidade de Patos (PB), tendo como principais Ancylostoma spp. (o mais frequente), seguido por Strongyloides spp., Trichuris spp., Enterobius vermicularis e Toxocara spp. (GORGÔNIO et al., 2021). No município de Porto Alegre (RS) 100% das áreas recreativas, dos oito parques analisados, apresentaram contaminação por parasitas, entre eles ovos de Taenia spp., Enterobius vermicularis, Toxocara spp. e Ascaris lumbricoides, além de cistos de ameba e estruturas de ancilostomídeos e nematoides (DUMS et al., 2024).

O estudo de Silva, Loures e Franciscato (2022) mostra uma maior incidência de infecções parasitárias em animais não domiciliados (em média 70,36% de prevalência) em comparação com animais domiciliados (média 46,48%), o que entretanto ainda se faz preocupante, pois a média fica muito próximo a 50% dos animais que são mantidos dentro de casa.

Para Costa-Filho e colaboradores (2024) a preocupação vai além das praças e parques cuja contaminação foi evidenciada pela presença de Ancylostoma spp. (48,6%), Toxocara spp. (32,6%) e Ascaris spp. (20,6%), além de larvas de Strongyloides spp; mas também traz a reflexão sobre a presença destes parasitas em ambientes escolares que dispões de caixas de areia para entretenimentos de crianças durante o intervalo entre aulas, indicando a presença de Trichuris spp., Dipylidium spp. e Toxocara spp. em 25% das amostras testadas, indicando risco às crianças.

Além dos riscos diretos à saúde, a presença desses parasitas compromete o uso seguro e saudável dos espaços públicos, exigindo ações integradas entre poder público, comunidade e profissionais da saúde e do meio ambiente.

A alta incidência de infecção em animais domiciliados e não domiciliados enfatiza a necessidade de programas de controle e prevenção. Estratégias eficazes devem incluir programas educacionais, tratamento regular dos animais, melhoria das condições de saneamento básico e a restrição física de áreas públicas contaminadas (como cercamento de parques), o que exige a participação de gestores na definição de políticas públicas (KATAGIRI; OLIVEIRA-SEQUEIRA, 2007; ROCHA; WEBER; COSTA, 2019).

A atuação do poder público é essencial para reconhecer e enfrentar os riscos parasitários presentes em praças, parques e demais áreas de convivência. Quando gestores compreendem a dimensão sanitária desses ambientes, tornam-se capazes de implementar ações estruturais e educativas que realmente reduzem a exposição da população. Isso inclui manutenção adequada dos espaços, políticas de controle de animais errantes, campanhas de conscientização sobre recolhimento de fezes e incentivo à vermifugação de animais domésticos. A percepção governamental desses riscos transforma evidências científicas em medidas práticas de prevenção, garantindo ambientes mais seguros e promovendo saúde coletiva de forma contínua e sustentável. E compete ao médico veterinário um papel central como promotor de saúde pública e difusor de conhecimento, educando os proprietários de animais sobre o uso correto de antiparasitários, pois o uso indiscriminado de parasiticidas, sem o diagnóstico coproparasitológico adequado, pode gerar uma falsa sensação de segurança.

 

Conclusão

Ao detectar a presença desses nematódeos em locais frequentados tanto por animais quanto por seres humanos, nota-se a importância de medidas de prevenção à contaminação ambiental, de animais e de seres humanos. Entre essas, pode-se destacar a coleta e descarte adequado das fezes de cães e gatos e a realização de exame coproparasitológico periodicamente, além da vermifugação orientada corretamente pelo médico veterinário. Dessa forma, ocorre a preservação da saúde única e evidencia-se a importância das pesquisas relacionadas a agentes infecciosos de potencial zoonótico.

 

Referências

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[1] Discente do Curso de Medicina Veterinária do Centro Universitário Central Paulista (UNICEP). ORCID: 0009-0000-0819-4442. E-mail: giuliacarolina69@gmail.com

 

[2] Docente do Curso de Medicina Veterinária do Centro Universitário Central Paulista (UNICEP). ORCID: 0000-0003-0862-4873. E-mail: maralgravinatti@gmail.com 

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